Quem jogava videogame nos anos 1990 e 2000 provavelmente se lembra de uma época em que entrar em uma locadora ou loja de games significava encontrar nomes como Driver, Dino Crisis, Guitar Hero, Burnout, Medal of Honor, Prince of Persia e Mega Man ocupando as prateleiras.
Algumas dessas franquias eram gigantes.
Recebiam novos jogos constantemente, apareciam em revistas especializadas e faziam parte das conversas entre jogadores.
Então alguma coisa mudou.
Algumas desapareceram por anos. Outras tiveram suas fórmulas substituídas por concorrentes. Algumas voltaram recentemente, enquanto outras continuam esperando uma oportunidade.
Mas por que franquias extremamente populares simplesmente deixam de receber novos jogos?
A resposta envolve muito mais do que vendas.
Mudanças no comportamento dos jogadores, aumento dos custos de desenvolvimento, decisões empresariais, novas tecnologias e até o enorme sucesso de franquias concorrentes podem transformar completamente o destino de uma série.
Uma franquia famosa não é garantia de novos jogos
Quando uma série vende milhões de unidades, parece lógico imaginar que a empresa continuará produzindo sequências para sempre.
Na prática, não funciona assim.
Cada novo jogo representa um investimento.
Quanto mais cara fica a produção, maior precisa ser o potencial de retorno.
Uma franquia que vendeu muito bem há 15 anos não necessariamente possui hoje uma audiência grande o suficiente para justificar uma superprodução.
Existe ainda outro problema.
Os jogadores mudam.
Gêneros que dominavam o mercado podem perder espaço enquanto novas tendências aparecem.
Foi exatamente isso que aconteceu com várias séries históricas.
1. Driver — quando GTA mudou as regras do mundo aberto
Durante a geração do primeiro PlayStation, Driver era um nome enorme.
O primeiro jogo, lançado em 1999, colocou o jogador no controle de Tanner e ofereceu perseguições cinematográficas inspiradas em filmes policiais.
Dirigir livremente por cidades tridimensionais era algo impressionante para a época.
Driver 2 aumentou a ambição e permitiu inclusive sair do veículo.
Então surgiu um concorrente que mudaria completamente o mercado.
Grand Theft Auto III, lançado em 2001, apresentou uma cidade aberta onde dirigir era apenas uma das possibilidades.
O jogador podia explorar a pé, utilizar diferentes veículos e participar de inúmeras atividades.
A expectativa sobre jogos urbanos mudou.
Driver continuou existindo e recebeu diferentes títulos. Um dos mais interessantes foi Driver: San Francisco, lançado em 2011.
Apesar da recepção positiva, a série deixou de receber grandes lançamentos.
Driver demonstra como uma franquia pode perder espaço não necessariamente porque sua ideia era ruim, mas porque um concorrente levou aquela ideia para uma direção muito maior.
2. Dino Crisis — os dinossauros que os fãs ainda querem de volta
Imagine Resident Evil, mas substituindo zumbis por dinossauros.
Essa descrição ajuda a entender por que Dino Crisis chamou tanta atenção no final dos anos 1990.
Produzido pela Capcom, o primeiro jogo misturava sobrevivência, exploração e criaturas extremamente perigosas.
Dino Crisis 2 adotou uma abordagem mais voltada para ação.
A franquia, entretanto, perdeu força posteriormente.
Enquanto Resident Evil continuou sendo uma das propriedades mais importantes da Capcom e recebeu remakes extremamente elaborados, Dino Crisis permaneceu durante anos sem um novo título principal.
Isso criou uma situação curiosa.
A tecnologia atual parece perfeita para a franquia.
Imagine dinossauros produzidos com gráficos modernos, iluminação avançada e inteligência artificial capaz de perseguir o jogador por ambientes fechados.
É justamente por isso que Dino Crisis continua aparecendo em discussões sobre franquias que poderiam retornar.
3. Burnout — quando destruir carros era parte da diversão
Nem todo jogo de corrida precisa tentar reproduzir perfeitamente a realidade.
Burnout entendia isso muito bem.
Velocidade absurda, acidentes espetaculares e disputas agressivas transformaram a franquia em uma das experiências de corrida mais marcantes de sua geração.
Burnout 3: Takedown é especialmente lembrado pelos fãs.
Posteriormente, Burnout Paradise levou a fórmula para um ambiente aberto.
Mas o mercado de corrida mudou.
A Criterion Games passou a trabalhar também com outras propriedades da Electronic Arts, especialmente Need for Speed.
Burnout Paradise recebeu posteriormente uma versão remasterizada, mas um novo capítulo principal não apareceu.
O curioso é que ainda existe espaço para esse tipo de jogo.
Em um mercado cheio de simuladores e experiências automobilísticas realistas, uma franquia completamente dedicada ao caos poderia novamente encontrar seu público.
4. Guitar Hero — a franquia que ficou grande rápido demais
Poucas franquias representam tão bem os anos 2000 quanto Guitar Hero.
O conceito era extremamente simples e brilhante.
O jogador utilizava um controle em formato de guitarra e precisava acompanhar as notas exibidas na tela.
De repente, pessoas que nunca haviam tocado um instrumento estavam simulando apresentações de rock dentro da sala de casa.
O sucesso foi enorme.
E justamente aí apareceu um problema.
A quantidade de lançamentos aumentou rapidamente.
Guitar Hero recebeu sequências, versões dedicadas a bandas e diferentes produtos derivados.
Ao mesmo tempo, Rock Band competia pelo mesmo público.
O mercado acabou saturado.
A franquia tentou retornar posteriormente com Guitar Hero Live, mas não recuperou a posição que possuía em seu auge.
Guitar Hero é um excelente exemplo de como lançar produtos demais também pode prejudicar uma marca.
5. Medal of Honor — antes de Call of Duty dominar
Antes de Call of Duty se transformar em um fenômeno mundial, Medal of Honor era uma das principais referências em jogos de guerra.
A franquia começou no primeiro PlayStation e ganhou enorme popularidade.
Medal of Honor: Allied Assault tornou-se particularmente importante no PC.
Durante anos, a série esteve associada principalmente à Segunda Guerra Mundial.
Mas o mercado mudou.
Call of Duty cresceu rapidamente e posteriormente encontrou enorme sucesso ao levar a série para conflitos modernos com Call of Duty 4: Modern Warfare.
Battlefield também ganhou força.
Medal of Honor tentou se reinventar, mas enfrentou um mercado extremamente competitivo.
Depois de Medal of Honor: Warfighter, lançado em 2012, a série principal entrou em um longo período sem novos capítulos tradicionais.
Anos depois, Medal of Honor: Above and Beyond levou a marca para realidade virtual.
Mesmo assim, ela nunca recuperou o protagonismo que possuía anteriormente.
6. Prince of Persia — o príncipe que abriu caminho para outro gigante
Prince of Persia possui uma história muito mais antiga do que muitos jogadores imaginam.
O jogo original surgiu em 1989.
Décadas depois, Prince of Persia: The Sands of Time ajudou a reinventar a franquia com movimentos acrobáticos, exploração tridimensional e manipulação do tempo.
A série ganhou novas continuações.
Mas dentro da própria Ubisoft começou a crescer outra franquia.
Assassin’s Creed.
O primeiro Assassin’s Creed nasceu de ideias relacionadas ao desenvolvimento de uma nova experiência dentro do universo de Prince of Persia, antes de se transformar em uma propriedade independente.
Assassin’s Creed posteriormente tornou-se uma das maiores marcas da Ubisoft.
Prince of Persia passou muito tempo em segundo plano.
Mas essa história possui uma diferença importante em relação a outras franquias desta lista:
Prince of Persia voltou.
Prince of Persia: The Lost Crown mostrou que uma franquia antiga pode ser reinterpretada em vez de simplesmente tentar repetir exatamente aquilo que funcionava décadas atrás.
7. Mega Man — de inúmeros lançamentos para intervalos enormes
Mega Man é um dos personagens mais reconhecidos da história da Capcom.
Durante diferentes gerações, a franquia recebeu uma quantidade enorme de jogos.
Mega Man clássico, Mega Man X, Mega Man Zero, Battle Network e outras séries transformaram a propriedade em praticamente um universo próprio.
Mas a frequência diminuiu consideravelmente.
Mega Man 11 mostrou que ainda existe interesse pela fórmula tradicional.
Além disso, coleções ajudaram a disponibilizar títulos antigos para novos públicos.
Mesmo assim, a quantidade de lançamentos inéditos está muito distante do ritmo observado no passado.
Isso demonstra outra transformação da indústria.
Antigamente era possível produzir determinadas sequências em ciclos relativamente curtos.
Hoje, até franquias clássicas precisam disputar recursos com projetos maiores dentro das próprias publishers.
8. Silent Hill — uma franquia pode desaparecer e depois renascer
Silent Hill é um caso especialmente interessante porque sua história mostra que desaparecimento não significa necessariamente morte definitiva.
Os primeiros títulos ajudaram a definir o terror psicológico nos videogames.
Silent Hill 2 tornou-se particularmente influente.
Posteriormente, a franquia perdeu a frequência de lançamentos e passou anos sem receber o mesmo nível de atenção.
Durante algum tempo, muitos jogadores acreditaram que Silent Hill poderia permanecer apenas como uma lembrança.
Isso mudou.
A Konami voltou a investir na propriedade, incluindo o remake de Silent Hill 2 e outros projetos.
É uma demonstração clara do valor que uma franquia antiga pode recuperar quando existe público interessado e uma estratégia adequada.
9. Tony Hawk’s Pro Skater — quando um gênero inteiro perdeu força
Houve uma época em que jogos de skate estavam em praticamente todos os lugares.
Tony Hawk’s Pro Skater foi um fenômeno.
Sua combinação de skate, músicas marcantes, desafios e jogabilidade acessível conquistou milhões de jogadores.
Mas, assim como aconteceu com Guitar Hero, muitos lançamentos chegaram ao mercado durante um período relativamente curto.
Posteriormente, jogos de skate perderam parte de sua popularidade.
A série passou por diferentes tentativas de reinvenção.
Então aconteceu algo interessante.
Tony Hawk’s Pro Skater 1 + 2 mostrou que nostalgia pode ser transformada em um produto moderno quando existe cuidado na reconstrução.
O retorno também demonstrou que jogadores não necessariamente querem apenas gráficos antigos novamente.
Eles querem recuperar a sensação que aqueles jogos proporcionavam.
10. Legacy of Kain — uma história esperando continuação
Entre jogadores que acompanharam a era do primeiro PlayStation, Legacy of Kain possui uma comunidade particularmente dedicada.
A franquia ficou conhecida por seu universo sombrio, narrativa elaborada e personagens como Kain e Raziel.
Legacy of Kain: Soul Reaver tornou-se um de seus capítulos mais lembrados.
Apesar disso, novos títulos desapareceram por um longo período.
O interesse, porém, permaneceu.
Esse tipo de franquia representa um ativo interessante para uma publisher.
Mesmo depois de muitos anos, existe uma comunidade que reconhece personagens, universo e história.
Relançamentos e remasterizações podem funcionar como uma maneira de testar se existe público suficiente para investimentos maiores.
Por que tantas franquias desapareceram?
Depois de observar todos esses exemplos, encontramos alguns padrões.
1. Os jogos ficaram mais caros
Criar uma sequência para PlayStation ou Nintendo 64 era muito diferente de financiar uma superprodução atual.
Hoje, uma publisher precisa avaliar cuidadosamente onde investir seus recursos.
2. Novos concorrentes apareceram
Driver enfrentou um mercado transformado por GTA.
Medal of Honor viu Call of Duty crescer.
Prince of Persia passou a dividir atenção com Assassin’s Creed.
Em tecnologia, liderança nunca é permanente.
3. Alguns gêneros perderam popularidade
Jogos musicais são um excelente exemplo.
Durante determinado período, Guitar Hero parecia imparável.
Poucos anos depois, o mercado estava completamente diferente.
4. Excesso de lançamentos pode cansar o público
Existe um equilíbrio delicado.
Ficar muitos anos sem lançar nada pode fazer uma franquia perder relevância.
Mas produzir sequências em excesso também pode gerar saturação.
5. As empresas mudam suas prioridades
Uma publisher possui recursos limitados.
Programadores, artistas e orçamento destinados a um projeto não podem necessariamente estar trabalhando simultaneamente em outro.
Se uma empresa possui uma franquia vendendo dezenas de milhões, naturalmente existe uma forte justificativa comercial para priorizá-la.
Por que os remakes se tornaram tão populares?
Existe uma razão comercial interessante.
Criar uma franquia completamente nova significa convencer o público de que personagens e universo desconhecidos merecem sua atenção.
Um remake começa com uma vantagem:
as pessoas já conhecem o nome.
Resident Evil demonstrou como títulos antigos podem ser reconstruídos para uma nova geração.
Final Fantasy VII seguiu uma estratégia ainda mais ambiciosa.
Silent Hill 2 também retornou através de um remake.
Isso reduz parte do risco relacionado ao reconhecimento da marca.
Mas não elimina o desafio.
Um remake ruim pode prejudicar justamente a memória que tornou aquela franquia valiosa.
Nostalgia virou um enorme mercado
Existe também uma questão demográfica.
Uma pessoa que tinha 12 anos jogando PlayStation em 1998 está hoje próxima dos 40.
Muitos desses jogadores continuam consumindo videogames.
Agora possuem poder de compra muito diferente daquele que tinham quando eram crianças.
Isso criou um mercado interessante para produtos nostálgicos.
Consoles retrô, remasters, remakes e coleções conseguem conversar simultaneamente com dois públicos.
Os jogadores antigos encontram lembranças.
Os mais novos descobrem franquias que não conheceram em suas versões originais.
Toda franquia antiga deveria voltar?
Não necessariamente.
Às vezes uma série pertence perfeitamente à época em que foi criada.
Tentar modernizar todas as suas características pode retirar justamente aquilo que a tornava especial.
O verdadeiro desafio é descobrir:
o que precisa permanecer e o que precisa evoluir?
Um bom retorno não deveria simplesmente copiar um jogo de 20 anos atrás.
Ele precisa entender por que aquele jogo era divertido e encontrar uma maneira de produzir a mesma sensação utilizando as possibilidades atuais.
Qual franquia poderia fazer um grande retorno?
Dino Crisis é frequentemente lembrada porque a tecnologia moderna poderia transformar completamente seus dinossauros.
Burnout poderia ocupar novamente o espaço das corridas arcade extremamente agressivas.
Driver poderia explorar uma experiência policial diferente de GTA.
Legacy of Kain possui um universo narrativo que poderia ser apresentado a uma nova geração.
Guitar Hero poderia encontrar novas possibilidades com serviços digitais e grandes bibliotecas musicais, embora questões de licenciamento tornem esse tipo de projeto complexo.
O potencial existe.
A pergunta é se existe público suficiente para justificar o investimento.
As franquias realmente morrem?
No mercado dos videogames, talvez seja melhor evitar a palavra “morrer”.
Uma propriedade intelectual pode permanecer parada durante 10 ou 20 anos e ainda retornar.
Enquanto os direitos continuarem existindo e houver interesse comercial, sempre existe alguma possibilidade.
Silent Hill mostrou isso.
Prince of Persia mostrou isso.
Tony Hawk mostrou isso.
E outras séries provavelmente farão o mesmo.
O futuro pode trazer ainda mais jogos antigos de volta
À medida que os custos das grandes produções aumentam, marcas conhecidas podem se tornar ainda mais interessantes para publishers.
Isso não significa que deixaremos de receber novas propriedades intelectuais.
Mas existe uma enorme biblioteca de personagens e universos que empresas podem revisitar.
Algumas retornarão através de remasters.
Outras receberão remakes completos.
Algumas ganharão continuações.
E provavelmente veremos também franquias sendo completamente reinventadas.
Conclusão
Então, o que aconteceu com as grandes franquias de games do passado?
Não existe uma única resposta.
Algumas perderam espaço para concorrentes.
Outras sofreram com excesso de lançamentos.
Determinados gêneros deixaram de ser populares.
Em alguns casos, as empresas simplesmente encontraram projetos mais lucrativos para priorizar.
Mas existe algo que nenhuma planilha consegue medir perfeitamente:
a memória dos jogadores.
Quem passou tardes disputando corridas em Burnout, fugindo de dinossauros em Dino Crisis, tocando guitarra de plástico em Guitar Hero ou explorando cidades em Driver provavelmente ainda consegue lembrar dessas experiências.
É justamente essa memória que mantém muitas franquias vivas mesmo décadas depois de seus últimos grandes momentos.
No mundo dos videogames, uma franquia pode ficar muito tempo desaparecida.
Mas basta um trailer, uma música conhecida ou o retorno de um personagem clássico para milhões de jogadores lembrarem imediatamente de uma época inteira.
E talvez seja por isso que, nos games, algumas histórias nunca terminem de verdade.
Última atualização: setembro de 2026.
Este artigo possui finalidade informativa e editorial. Todos os jogos, personagens e marcas mencionados pertencem aos seus respectivos proprietários.
